Lígia estava com a vaidade saindo pelos poros desde que encontrara uma relação entre os textos de Clarice e Kafka, essencialmente entre "A paixão segundo G.H." e "A metamorfose". Andava com os dois livros pra lá e pra cá, comparando trechos, relendo partes que grifara para postar em alguma rede social. Constatara uma clara in-ter-tex-tu-a-li-da-de. Teria que falar pausadamente essa palavra grande diante da professora de Literatura Comparada de Gêneros Exóticos III. Já tinha até o título do ensaio que escreveria: "Baratas voadoras da República Tcheca - intertextualidades de barriga no chão". Manoel de Barros faria o prefácio (sim, porque já era uma dissertação de mestrado). Terminaria com a famigerada canção do Renato Russo - "e você sabe o que é ter pavor, pavor, pavor de baratas voadoras?". Rússia, Ucrânia e República Tcheca, numa linda conexão do Leste Europeu, o que tornaria a sua tese de doutorado ainda mais underground (porque a França está muito clichê, não é verdade?) Até lá já teria tirado o aparelho odontológico e poderia falar in-ter-tex-tu-a-li-da-de com mais clareza. Lígia Fagundes Varella. E o Lattes mais bonito da cidade.
Mas pobre Lígia... Que desgosto, que desgosto... Já havia escolhido a citação inicial de seu trabalho quando o Jorge Alphonsus de Guimaraens, do Grupo de Estudos Kafkianos, compartilha liricamente no livro das faces a grande descoberta: um poema com 10 cantos e em decassílabos intitulado "Samsa vai dar uma chinelada na barata da Clarice".
E o mundo acadêmico perdia uma obra-prima de poeira, papel, capa dura e letras douradas a ser exposta na estante da pós-graduação da biblioteca da universidade. O seu lugar na prateleira sofre, entregue às baratas!
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Desanimo, moço!
Jayane . diz (23:33)
é isto q ta me agoniando agora: o q fazer com uma formação em medicina.
J. D. diz (23:34)
pesquisa
contraponto a industria farmaceutica
botar pra rolar a coisa clinica até
Jayane . diz (23:34)
falar com pessoas
J. D. diz (23:35)
médico não precisa ser o sujeito que cura
pode ser o sujeito que discute a cura
cura é coisa pra máquina
remédio
tratamento
J. D. diz (23:36)
médico é pra ajudar a lidar com o corpo
Jayane . diz (23:36)
gostei disso
J. D. diz (23:36)
se tem alguma função em ser médico só vejo isso
e já acho coisa demais
J. D. diz (23:37)
o resto é coisa pra tecnologia
assim como catar lixo é coisa pra tecnologia
ser gari é um desperdicio de humanidade
J. D. diz (23:38)
tudo que é automatico é desperdicio de humanidade
tudo que tem com eficiência essas coisas
não é pra gente
gente é errada, não é eficiente
J. D. diz (23:39)
gente cria, inventa, pensa
curia
voltando ao médico
J. D. diz (23:40)
médico não tem que curar, tem que curiar
e não dizer: ah vc tem isso, tome esse remédio e retorne daqui a tantos meses
vejo os cara fazendo isso sempre
tem solução pronta e vai jogando
Jayane . diz (23:46)
isso me animou
haha
J. D. diz (23:46)
caralho cê desanima com isso ..
Jayane . diz (23:46)
desanimo
J. D. diz (23:46)
véa, tem vida em todo canto
J. D. diz (23:47)
quem faz o troço é seu cortex
é isto q ta me agoniando agora: o q fazer com uma formação em medicina.
J. D. diz (23:34)
pesquisa
contraponto a industria farmaceutica
botar pra rolar a coisa clinica até
Jayane . diz (23:34)
falar com pessoas
J. D. diz (23:35)
médico não precisa ser o sujeito que cura
pode ser o sujeito que discute a cura
cura é coisa pra máquina
remédio
tratamento
J. D. diz (23:36)
médico é pra ajudar a lidar com o corpo
Jayane . diz (23:36)
gostei disso
J. D. diz (23:36)
se tem alguma função em ser médico só vejo isso
e já acho coisa demais
J. D. diz (23:37)
o resto é coisa pra tecnologia
assim como catar lixo é coisa pra tecnologia
ser gari é um desperdicio de humanidade
J. D. diz (23:38)
tudo que é automatico é desperdicio de humanidade
tudo que tem com eficiência essas coisas
não é pra gente
gente é errada, não é eficiente
J. D. diz (23:39)
gente cria, inventa, pensa
curia
voltando ao médico
J. D. diz (23:40)
médico não tem que curar, tem que curiar
e não dizer: ah vc tem isso, tome esse remédio e retorne daqui a tantos meses
vejo os cara fazendo isso sempre
tem solução pronta e vai jogando
Jayane . diz (23:46)
isso me animou
haha
J. D. diz (23:46)
caralho cê desanima com isso ..
Jayane . diz (23:46)
desanimo
J. D. diz (23:46)
véa, tem vida em todo canto
J. D. diz (23:47)
quem faz o troço é seu cortex
As férias e a depressão. Por Jayane Ribeiro.
Nas férias eu tenho tempo para soltar todos os meus demônios. Todos aqueles problemas que sempre estiveram lá. Todos os meus problemas estão aqui desde que nasci. E eles saem todos quando eu não tenho nada pra fazer. O destino do nada pra fazer só pode ser mesmo escrever livros. Sim, colocar demônios pra fora. Assim como colocar anjos. Ou uma coisa nova, totalmente desconhecida. Por isso, apesar da vontade de me matar, às vezes, meu grande sonho é não fazer nada e, assim como o Manoel de Barros, um dia ser vagabunda profissional. E sem me sentir culpada por isso.
Isso é um plano.
Isso é um plano.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
"O professor de História passou um trabalho em grupo. Quem não fizer vai ter que fazer uma prova de 10 questões. Eu prefiro fazer a prova."
(Além da misantropia, nós duas combinamos em outra coisa)
(Minha irmã, há 4 dias na escola e ainda não falou com nenhum colega. E não tá nem aí. O que tinha no leite da mamãe?)
(Além da misantropia, nós duas combinamos em outra coisa)
Minha empadinha não ficou boa
E me deu uma vontade de chorar
Eu não segui direitinho a receita
Farinha, gema de ovo e manteiga
Nas proporções da minha intuição
Queijo, castanha, creme de leite
Em vez de carne de frango
Forno médio, vinte minutos
Em vez de trinta e cinco
E minha empadinha não ficou boa
E eu já quase choro porque
Ela cheira bem
Ela é bonita
Ela tem gosto bom
Mas não é boa
Não dá vontade de comer mais
É uma pena e me deixa sentida
Que minha empadinha não desperte desejo
Por isso que eu fico assim, olhos baixos
Com um monte de louça pra lavar, sozinha
E com fome
O que eu faço com todas essas empadinhas que sobraram?
As minhas empadinhas, que eu fiz tão cheia de intuição
Elas vão pro lixo
E me deu uma vontade de chorar
Eu não segui direitinho a receita
Farinha, gema de ovo e manteiga
Nas proporções da minha intuição
Queijo, castanha, creme de leite
Em vez de carne de frango
Forno médio, vinte minutos
Em vez de trinta e cinco
E minha empadinha não ficou boa
E eu já quase choro porque
Ela cheira bem
Ela é bonita
Ela tem gosto bom
Mas não é boa
Não dá vontade de comer mais
É uma pena e me deixa sentida
Que minha empadinha não desperte desejo
Por isso que eu fico assim, olhos baixos
Com um monte de louça pra lavar, sozinha
E com fome
O que eu faço com todas essas empadinhas que sobraram?
As minhas empadinhas, que eu fiz tão cheia de intuição
Elas vão pro lixo
Tão bonito gente que acredita em Deus
Aquele Deus bonito, que trás e leva as coisas
Aquele Deus que fica no canto dele, olhando
O Deus que está na boca das crianças, que dizem:
"Foi Deus que levou a vovó"
E o Deus que as leva a brincar depois disso
Como todas as outras crianças
Um Deus que me leve
Que seja leve
Aquele Deus bonito, que trás e leva as coisas
Aquele Deus que fica no canto dele, olhando
O Deus que está na boca das crianças, que dizem:
"Foi Deus que levou a vovó"
E o Deus que as leva a brincar depois disso
Como todas as outras crianças
Um Deus que me leve
Que seja leve
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Travessia
Li o "Grande Sertão: Veredas". E a novela "Campo Geral", aquela do Miguilim, é melhor. Guimarães estava com Deus nos couros quando escreveu "Campo Geral".
Bem, o que me aconteceu em "Grande Sertão: Veredas"? Aconteceu que o livro tem um ritmo que não vou adjetivar, mas que foi assim, pra mim: as primeiras 100 páginas foram um sacrifício. Mesmo. Lia com dor, quis desistir, desisti várias vezes - e nisso eu passei mais de um ano. No que, levo essas 100 páginas lidas para Limoeiro do Norte. E lá, a mágica aconteceu. Com uma certa dorzinha adolescente em contrariar meu amado Bernardo Soares, eu mudei com a paisagem, assim como o livro. Virei a página e lá estava Riobaldo finalmente galopando nas matas de buritis, em vez de se rastejar pelas areias quentes dos sertões. Aí foi rápido: em 4 dias eu estava a 100 páginas do fim. E aí? Alegria total? Arranque final? Não. Aí o livro se tornou totalmente previsível. No que, com certa ironia, eu cito o próprio Guimarães, no exato "Grande Sertão": "o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia".
E estaria tudo acabado... se o livro não fosse escrito por João Guimarães Rosa. O enredo já estava certo para mim (aliás, antes mesmo das 100 páginas finais), porém, ler Guimarães tem sido sempre uma desconstrução - da língua, do sentido, da História, de mim, de você. E é sempre uma sabedoria adivinhada em cada pedacinho de texto. Eu não gosto de religiões, condeno instituições e ignoro a existência de um Deus... mas tenho meus cultos. O texto de Guimarães Rosa é um dos meus cultos. E "Grande Sertão: Veredas" foi um grande encontro com os meus sagrados. Adoro palavras, letras. Gosto de comê-las com farinha de macaxeira e mel de abelha de jurema, debaixo de um pé de juá. "Grande Sertão:Veredas" chega é doce. (Mas o Miguilim é mais.)
Bem, o que me aconteceu em "Grande Sertão: Veredas"? Aconteceu que o livro tem um ritmo que não vou adjetivar, mas que foi assim, pra mim: as primeiras 100 páginas foram um sacrifício. Mesmo. Lia com dor, quis desistir, desisti várias vezes - e nisso eu passei mais de um ano. No que, levo essas 100 páginas lidas para Limoeiro do Norte. E lá, a mágica aconteceu. Com uma certa dorzinha adolescente em contrariar meu amado Bernardo Soares, eu mudei com a paisagem, assim como o livro. Virei a página e lá estava Riobaldo finalmente galopando nas matas de buritis, em vez de se rastejar pelas areias quentes dos sertões. Aí foi rápido: em 4 dias eu estava a 100 páginas do fim. E aí? Alegria total? Arranque final? Não. Aí o livro se tornou totalmente previsível. No que, com certa ironia, eu cito o próprio Guimarães, no exato "Grande Sertão": "o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia".
E estaria tudo acabado... se o livro não fosse escrito por João Guimarães Rosa. O enredo já estava certo para mim (aliás, antes mesmo das 100 páginas finais), porém, ler Guimarães tem sido sempre uma desconstrução - da língua, do sentido, da História, de mim, de você. E é sempre uma sabedoria adivinhada em cada pedacinho de texto. Eu não gosto de religiões, condeno instituições e ignoro a existência de um Deus... mas tenho meus cultos. O texto de Guimarães Rosa é um dos meus cultos. E "Grande Sertão: Veredas" foi um grande encontro com os meus sagrados. Adoro palavras, letras. Gosto de comê-las com farinha de macaxeira e mel de abelha de jurema, debaixo de um pé de juá. "Grande Sertão:Veredas" chega é doce. (Mas o Miguilim é mais.)
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